Mulheres no setor automotivo cresceram 230% em seis anos, segundo a Oficina Brasil. O número já impressiona. Mas ele conta só metade da história.
A outra metade está na bancada de oficina, na sala de aula de uma escola técnica, na cadeira de presidência de uma empresa. São lugares diferentes, e mulheres ocupando cada um deles, em pontos distintos do Brasil.
Você vai ver, neste conteúdo, os números atualizados dessa presença. E vai ler direto de quem constrói essa mudança todos os dias: da entrada no setor até a liderança, do primeiro dia de trabalho ao espaço conquistado.
Quanto cresceu a presença feminina no setor automotivo
As mulheres no setor automotivo saíram de 21% em 2017 para 24% em 2025, segundo a pesquisa Diversidade e ESG no Setor Automotivo, da Automotive Business em parceria com a MHD Consultoria. Não é um salto enorme em oito anos, mas sim um crescimento constante, ano após ano.
Na reparação automotiva, esse avanço é bem mais rápido. A presença feminina cresceu 230% em seis anos, saindo de 5% em 2019 para 16,5% em 2025, segundo a Oficina Brasil. E o dado mais interessante vem de quem está entrando agora: 43% dos reparadores com até 24 anos já são mulheres.
Veja como esses dois recortes se comparam:
| Recorte | 2017/2019 | 2025 |
|---|---|---|
| Força de trabalho no setor automotivo (geral) | 21% | 24% |
| Presença feminina na reparação automotiva | 5% | 16,5% |
| Reparadores com até 24 anos que são mulheres | — | 43% |
Quem sente esse crescimento na prática é Sandra Nalli, hoje à frente da Escola do Mecânico, depois de 20 anos numa mesma rede de centros automotivos e de ter sido a primeira mulher mecânica da empresa onde trabalhou.

“A Escola do Mecânico, esse ano, vai formar 20 mil pessoas, e 10% do total de matrículas são para mulheres. Ou seja, vão formar 2 mil mulheres pelo menos na Escola do Mecânico”, conta Sandra Nalli.
Dez por cento pode parecer pouco. Mas há quinze anos, segundo ela, praticamente não existiam mulheres matriculadas nesse tipo de curso.
Entrar num mercado de homens: a cena que se repete
Números mostram crescimento. Mas não mostram o que é atravessar a porta de uma oficina pela primeira vez, sendo mulher, e sentir que ninguém ali espera você fique.
Niela entrou no setor aos 14 anos, ajudando a mãe na parte administrativa da oficina do pai. Foi no pátio que ela se identificou com o trabalho, e decidiu colocar a mão na massa de verdade.

“Um dos maiores desafios foi realmente lidar com os homens. O preconceito foi muito grande, principalmente no início, porque eu era bem novinha. Eles olhavam pra mim e viam que ali não era o meu lugar. Muitos deles nem respondia um bom dia e um boa tarde. Era como se eu não existisse. Eu não era vista como uma pessoa que poderia estar naquele local”, relembra Niela.
Essa cena não é exclusividade dela. Sandra Nalli viveu uma versão parecida na primeira capacitação técnica que fez: uma pessoa da equipe a orientou pra sala errada, presumindo que ela só poderia estar ali pra assistente administrativo, nunca pra mecânica.
O padrão se repete porque o problema nunca foi competência. Foi presunção, sobre quem tem lugar em cada espaço, antes mesmo de qualquer trabalho ser avaliado.
Da entrada à liderança: onde o avanço emperra
A entrada de mulheres no setor automotivo cresce, por que a liderança ainda é tão desigual? A resposta está no funil: quanto mais alto o cargo, menor a presença feminina.
Mulheres já são 55% dos estagiários e trainees no setor automotivo. Mas esse número cai pela metade na liderança geral, que fica em 20%, e cai ainda mais no conselho, com só 14%. Entre mulheres negras, a presença na liderança é de apenas 1%. O gap salarial em cargos de gestão chega a 9,5%. Os dados são da pesquisa Diversidade e ESG no Setor Automotivo (Automotive Business/MHD Consultoria, edição 2025).
Fernanda Lima, da Oficina Amiga do Motor, entrou no setor participando de arrancadas no Mega Space, região metropolitana de Belo Horizonte, montando o próprio carro com ajuda de um mecânico. Hoje lidera a própria oficina, sem executar reparo, e enfrentou barreira parecida quando assumiu a gestão.

“Um dos meus maiores desafios foi conquistar a confiança de alguns clientes homens. Ainda acontece de um cliente chegar à oficina e falar: ‘quero falar com o mecânico’. Eu respondo com tranquilidade: ‘claro, se tiver alguma questão técnica, nós vamos chamá-lo. Mas eu sou responsável pelo seu atendimento e vou acompanhar todo o processo”, conta Fernanda.
Ela resume o problema de um jeito direto: quando uma mulher recebe a chance de mostrar o trabalho, é o resultado que decide se ela merece estar ali, não a opinião de quem duvidou antes.
Quem decide a compra, e quem ainda fica de fora da decisão
Mulheres no setor automotivo também decidem do outro lado do balcão: a compra de carro. E, ainda assim, mulheres seguem sendo minoria em quem lidera as empresas que vendem esses carros.
Para 53,3% das mulheres, o carro representa liberdade e independência, segundo a pesquisa Webmotors Autoinsights 2026, feita com mais de 2 mil respondentes em fevereiro de 2026. Na hora de escolher o modelo, o fator que mais pesa é economia (28,3%), seguido de segurança (18,1%) e conforto (17,3%). No pagamento, financiamento parcial lidera com 39%, à vista vem em seguida com 30,5%.
Uma estimativa mais antiga, da Fenabrave, ainda circula bastante: mulheres responderiam por cerca de metade das compras de carro novo no Brasil, chegando a 60% em algumas concessionárias, e influenciariam até 80% das decisões de compra, mesmo quando não fecham o negócio sozinhas. Esse número é de 2022, então vale tratar como referência histórica, não como retrato de 2026.
Onde essa mudança já é visível: a MinasParts e a AMMA
Dado e discurso só convencem até certo ponto. Depois disso, o que importa é o que uma empresa faz dentro da própria casa.
Nas feiras organizadas pela Diretriz, entre 25% e 30% dos visitantes já são mulheres, segundo dado interno da própria empresa. Essa presença feminina também já aparece em outras feiras do grupo, caso de Gisele, primeira mulher a presidir um Sincopeças no Brasil.

“Não abrimos espaço para esse tema. Ele foi conquistando naturalmente o seu lugar dentro das nossas feiras, à medida que as mulheres passaram a ocupar cada vez mais espaços de protagonismo no setor“, afirma Marcela Jung, presidente da Diretriz Feiras e Eventos.
Essa mudança também tem nome de associação. A AMMA (Associação Brasileira das Mulheres do Mercado Automotivo) vai ter espaço dedicado dentro da programação da MinasParts.

“A AMMA nasceu para somar forças e oferecer visibilidade a uma presença que já é real no setor automotivo: a das mulheres que atuam com competência em todas as pontas da cadeia […] da operação à liderança, da oficina à indústria, da comunicação à gestão“, afirma Carla Norcia, presidente da AMMA, em entrevista à Novo Varejo, republicada pela AMMA.
Marcela fala como quem organiza o ponto de encontro. Carla fala como quem organiza as próprias mulheres dentro dele. As duas chegam à mesma conclusão, cada uma a seu modo:
“O momento certo é agora porque não estamos mais pedindo espaço: estamos construindo espaços juntos“, completa Carla Norcia.
O que ainda falta mudar para melhorar ainda mais o cenário
Os números avançam. Mas ainda falta o principal: mudança que não dependa de uma geração inteira pra acontecer.
Sandra Nalli aposta na raiz do problema, como quem forma profissionais todos os dias
“Levam-se anos para mudar uma cultura. O que vai fazer com que as mulheres ocupem cargos cada vez mais expressivos é a mudança de mentalidade da próxima geração. Isso tem relação com como a gente está educando os nossos filhos”, diz Sandra.
Marcela Jung, à frente da Diretriz, chega numa conclusão parecida, só que de outro ponto de partida:
“Essa transformação pode começar desde cedo, com a introdução de conceitos de engenharia, tecnologia e construção nos brinquedos e nas atividades com que meninas têm contato na infância”, afirma Marcela.
Uma vem da formação técnica de adultos, a outra vem da presidência de uma empresa de eventos. Chegaram no mesmo lugar sem combinar. Isso não é coincidência: o desafio para mulheres no setor automotivo já está diagnosticado, falta é tempo, e ação, pra virar prática
Mulheres no setor automotivo: a MinasParts como parte dessa transformação
Cresce a entrada. Cresce a liderança, ainda que devagar. E cresce também o espaço dedicado a reconhecer isso na prática, não só no discurso.
Fernanda, da Oficina Amiga do Motor, resume o que significa estar nesse setor hoje, sendo mulher, numa frase que carrega desafio, permanência e identidade ao mesmo tempo:
“Ser mulher no setor automotivo hoje é ter coragem para entrar, vai com medo mesmo (risos), competência para permanecer e liberdade para fazer do nosso jeito”, diz Fernanda.
A MinasParts 2026 é um desses espaços. Acontece entre os dias 30 de setembro e 3 de outubro, no Expominas, em Belo Horizonte, com programação dedicada à presença feminina no setor, incluindo espaço próprio da AMMA.
Quer visitar? A inscrição é gratuita. Garanta a sua e programe sua agenda com antecedência.
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MinasParts 2026
30 de setembro a 3 de outubro
Expominas, Belo Horizonte
www.feiraminasparts.com.br
Perguntas frequentes sobre mulheres no setor automotivo
Quanto cresceu a presença feminina no setor automotivo?
A força de trabalho feminina no setor saiu de 21% em 2017 para 24% em 2025. Na reparação automotiva, o crescimento foi de 230% em seis anos, chegando a 16,5% de presença em 2025.
Mulheres já ocupam cargos de liderança no setor automotivo?
Ocupam, mas em proporção bem menor que a entrada. Mulheres são 55% dos estagiários e trainees, mas só 20% da liderança geral e 14% dos conselhos.
As mulheres influenciam a compra de veículos no Brasil?
Influenciam bastante. Para 53,3% delas, o carro representa liberdade e independência, e o fator mais decisivo na escolha do modelo é economia, segundo pesquisa de 2026.
O que falta para mais mulheres chegarem à liderança no setor automotivo?
Segundo profissionais do setor, falta principalmente mudança cultural de longo prazo, começando desde a infância, e mais oportunidade de mostrar resultado, não só mais espaço de entrada.
A MinasParts tem alguma iniciativa voltada para mulheres do setor?
Tem. A AMMA (Associação Brasileira das Mulheres do Mercado Automotivo) terá espaço dedicado dentro da programação da MinasParts 2026.